Terno de Reis

Terno de Reis
      Fim de ano, correria, casas enfeitadas, lojas lotadas, festas nas empresas, amigo secreto, Papai Noel, presentes, ficar acordado até meia noite, foguetório...                                                    Hoje faz parte da vida de todos, mas vamos voltar um pouco no tempo e dar uma espiada.
   Sol a pino na tarde de verão, não tiveram que moer cana, nem bater rapadura, apenas o pai e os dois filhos mais velhos foram na roça, faltava um pedaço de cana para carpir, os que ficaram em casa também ajudavam, enchiam um dos cochos dos porcos com água e outro com farelo misturado com escuma, as gurias varriam o terreiro com vassoura de guanxuma. A mãe lidava em tirar uma galinha choca de dentro do forno de barro, pretendia ela botar fogo e assar roscas de polvilho, pão, farte, broa e por último merengue. A família era grande e cada um tinha a sua tarefa.
    Naquele vinte e quatro de dezembro há algumas décadas passadas, na sala simples da casa de chão batido, um galho de pinheiro já enfeitado, sem bolas nem pisca-pisca, pois naquele tempo não havia essas coisas, nem luz elétrica, esperava aquela família, alguma coisa que não era o Papai Noel, nem muitos presentes, talvez uma bruxinha de pano e umas bolitas porque o consumismo ainda não tinha chegado.
   A tarde passou ligeiro entretidos na sua lida, os que voltaram da roça lavaram-se no arroio, reuniram-se dentro do rancho a tomar chimarrão, nessa hora também chegou um dos guris que havia ido à venda do Dinarte, buscar querosene.
   Algumas horas depois, naquela mesma noite, um grupo de cavaleiros se aproxima pela estradinha ao pé do morro no Rincão da Palmeira, sem fazer barulho, apeiam junto ao engenho e ali amarram os cavalos. Os bois de canga que estavam deitados ao lado de um bagaceiro remoendo, fizeram pouco causo daquela movimentação.
   Os visitantes caminham em direção a casa, cada um com o seu instrumento: rabeca, dois violões e banjo.
     Em outros grupos de Terno e, com o passar do tempo, os instrumentos podem variar bastante, podem ser usados a viola, tambor, ferrinhos, violino (tende a tomar o lugar da rabeca e esta perde o lugar para a gaita) e a gaita tocada com todo cuidado para não abafar os outros instrumentos.
    O número de integrantes também varia, tendo os que cantam e tocam, os que só cantam, só tocam ou só acompanham, sendo assim distribuídos:
     Mestre: É o puxador dos versos, já traz consigo versos decorados, mas também improvisa.
     Ajudante de Mestre: Canta junto com o Mestre em duas vozes.
    Contramestre: Repete o verso cantado pelo Mestre.
    Ajudante de Contramestre: Canta em duas vozes com o Contramestre.
    Tipi (Tipe ou Tiple): Com a voz bem aguda vai dar uma extensão ao final da última ou duas últimas frases do verso, quando repetido pelo Contramestre e Ajudante de Contramestre com um: óóóóóóóó... Do tamanho do seu fôlego.
   Estão eles posicionados na porta da casa, lá dentro, todos dormindo. Nesse mesmo instante, quebra o silêncio da noite o som inconfundível da rabeca seguida pelos primeiros versos:
  (Canta Mestre e Ajudante de Mestre)     (Canta o Contramestre e Ajudante de Contramestre)                                              
  Chegamos com alegria                            Chegamos com alegria
  Chegamos com alegria                            Chegamos com alegria
  Nesta casa abençoada                             Nesta casa abençoada

  Viemos trazer notícia                              Viemos trazer notícia
  Viemos trazer notícia                              Viemos trazer notícia
  Para o dono dessa morada                     Para o dono dessa morada

  Meu senhor dono da casa                      Meu senhor dono da casa
  Meu senhor dono da casa                      Meu senhor dono da casa
  Somos reis do Oriente                             Somos reis do Oriente

  Seguindo a luz divina                               Seguindo a luz divina
  Seguindo a luz divina                               Seguindo a luz divina
  E uma estrela cadente                             E uma estrela cadente

  
  Anunciam que irá nascer o Rei dos Reis, conta a lenda que os três Reis Magos saem a procurar o Menino Jesus, guiados por uma estrela: Melchior, Baltazar e Gaspar encontram-no dia seis de janeiro e ofereceram-lhe mirra, incenso e ouro.
   O Mestre tem que ser conhecedor destas passagens, traz alguns versos decorados, mas usa muito o improviso, cantam em tercetos, depois de repetidos, fecham a rima no segundo terceto.
  Foi o anjo Gabriel                                      Foi o anjo Gabriel
  Foi o anjo Gabriel                                      Foi o anjo Gabriel
  Que essa nova nos deu                            Que essa nova nos deu

  Vai nascer o rei do mundo                       Vai nascer o rei do mundo
  Vai nascer o rei do mundo                       Vai nascer o rei do mundo
  Virá mandado por Deus                            Virá mandado por Deus
   Há versos de chegada, anunciação, agradecimento e despedida que são cantados na mesma visita, mas no decorrer dos dias do ciclo natalino, são respeitadas as estações: anterior ou véspera de vinte e cinco, dia de Natal, de vinte e cinco a primeiro do ano e de primeiro de janeiro ao dia de Reis.
   Antigamente os Ternos tinham função petitória (igreja), não entravam nas casas, recebiam ofertas, agradeciam e seguiam pra outra residência, como nas Folias do Divino. Diferente de hoje que aceitam para si o que é oferecido, mas não pedem.
  A sagrada escritura                                A sagrada escritura
  A sagrada escritura                                A sagrada escritura
  Confirma profecia                                  Confirma profecia

  Pra salvar a humanidade                      Pra salvar a humanidade
  Pra salvar a humanidade                      Pra salvar a humanidade
  Nasce o filho de Maria                          Nasce o filho de Maria
   O Terno de Reis também conhecido como Folia de Reis está espalhado por todo o Brasil e veio de Portugal com os primeiros povoadores.
   No Norte do Brasil os cantadores visitam as casas assim como aqui, mas há algumas diferenças, pois usam instrumentos de confecção caseira e artesanal, como tambores, reco-reco, flauta, viola caipira, rabeca e sanfona (acordeom) que também é usada aqui.
   O propósito da Folia não é de levar presentes, mas de recebê-los do dono da casa pra finalidades filantrópicas, exceto obviamente, as fartas mesas dos jantares e as bebidas que são oferecidas aos foliões.
   No Sul de Minas um grupo de Folia de Reis é composto da Bandeira ou Estandarte que é decorado com figuras alusivas ao menino Jesus, ou mesmo com palavras relativas à data. Outro componente importante é o Bastião que se veste de modo característico, mascarado, sempre portando uma espada e tem a função de folião propriamente dito, levando alegria por onde a folia passa, e como que abrindo caminho para a passagem da Folia que, de certa forma, representa os próprios Reis Magos. O Bastião tem também a função de citar textos bíblicos e recitar poesias alusivas. Na seqüência o grupo de vozes se organiza em Mestre, Ajudante, Contrato, Tipe, Retipe, Contratipe, Tala ou Finório. Na verdade esses nomes se referem a uma organização das vozes em tons e contra tons, durante a cantoria, o que leva a formação de um coro muito agradável aos ouvidos. O Mestre, por sua vez, tem papel especial de iniciar o canto, que é feito em versos e de improviso, agradecendo os donativos da casa visitada. Os outros componentes então repetem os versos, cada qual em sua voz, na cadência definida pelo Mestre, acompanhados pelos instrumentos que tocam.
   Aqui no Rio Grande do Sul e Santa Catarina o Terno de Reis tem origem açoriana, migrou de Portugal para as ilhas quando do povoamento destas no século XV.  Ele tem presença marcante no nosso litoral e principalmente no nosso município de Santo Antônio da Patrulha que é povoado por descendentes desses ilhéus.
   Na década de 70, na localidade de Arroio da Madeira, existiam pelo menos cinco grupos de Terno de Reis, muitos integrantes da família dos Mineiros, incluindo meu avô Flávio Francisco de Oliveira Reis.
   Muitos patrulhenses que haviam migrado para a Grande Porto Alegre vinham em visita a seus parentes, na época do natal, principalmente para cantar na temporada do Terno.
    Aqui na Palmeira, Morro Boa Vista, Roça Grande, Morro Agudo e arredores havia pelo menos uns quatro grupos, sendo seus Mestres Adelino Leonardo, Dodonho (Morro Agudo), Lauro Marques (Roça Grande) e Marino Tacile (Rincão da Palmeira).
    São muitos os cantadores de Terno, mas estão dispersos. Atualmente, aqui na Palmeira, não temos nenhum grupo formado, o último que temos notícia foi o Terno do Mestre Dário Péia, mas com o seu falecimento, assumiu como Mestre o senhor João Carlos Peixoto, sendo que a última temporada de apresentação foi há seis anos. Seus integrantes foram Dário Péia, Jorge Padilha, Casquinha, Quido, João Carlos, Rubi, Adão, Alírio e José Carvalho.
     O Terno Junino, que no nosso município não está mais presente, no passado alegrava as pessoas nas noites frias de inverno, era muito parecido com o Terno de Reis, havia a visitação das casas, saudando Santo Antônio, São Pedro e São Paulo, e seu ritmo de melodia era mais acelerado com versos referentes a estes santos. 
   Nota-se uma movimentação dentro da casa, candeeiro aceso, mas a porta continua fechada, só será aberta quando for pedida em versos, pelo Mestre.
  Meu senhor dono da casa                       Meu senhor dono da casa
  Meu senhor dono da casa                       Meu senhor dono da casa
  Queira nos abrir a porta                           Queira nos abrir a porta
     No caso de demora em abrir a porta, repetem o verso cantando por várias vezes, se por algum motivo, o dono da casa, mesmo assim, não abrir a porta, os cantadores desistem e vão embora ou então o Mestre improvisa e expressa cantando o seu descontentamento por não ter sido recebido; o que é muito raro. 
   O que não é o nosso caso, pois a porta já está aberta recebendo bem este Terno, que pede licença para entrar cantando.
  Pedimos a sua licença                                   Pedimos a sua licença
  Pedimos a sua licença                                   Pedimos a sua licença
  Para esse Terno entrar cantando               Para esse Terno entrar cantando
   Já todos dentro de casa, sem interromper a cantoria, viram-se os cantadores de frente para o pinheirinho saudando-o.
   Cantemos com devoção                     Cantemos com devoção
   Cantemos com devoção                     Cantemos com devoção
   Pinheirinho enfeitado                         Pinheirinho enfeitado

   Homenagem a Jesus                            Homenagem a Jesus
   Homenagem a Jesus                            Homenagem a Jesus
   Nesta noite de Natal                            Nesta noite de Natal

   Pinheirinho está saudado                   Pinheirinho está saudado
   Pinheirinho está saudado                   Pinheirinho está saudado
   Por Cristo nosso Senhor                      Por Cristo nosso Senhor

   Deus lhe salve pinheirinho                  Deus lhe salve pinheirinho
   Deus lhe salve pinheirinho                  Deus lhe salve pinheirinho
   E a mão que lhe enfeitou                    E a mão que lhe enfeitou
   Os participantes de um Terno são normalmente homens, às vezes um guri faz o papel de tipi, mas há exceções, no município de Caraá existe um Terno formado exclusivamente por mulheres; as irmãs Fernandes. Atualmente também no terno do Tony e no Terno do Orêncio uma voz feminina faz o tipi.

   Meu senhor dono da casa                     Meu senhor dono da casa                                
   Meu senhor dono da casa                     Meu senhor dono da casa                                
   Com prazer e alegria                               Com prazer e alegria  

   Desejo-lhes feliz natal                              Desejo-lhes feliz natal
   Desejo-lhes feliz natal                              Desejo-lhes feliz natal
   Pra você e sua família                              Pra você e sua família
   O seu Julio Gomes (Julio Basili), já falecido, quando algum terno o visitava, acocava-se junto à porta encostando bem o ouvido, pois era grande apreciador dessa cantoria, tinha grande dificuldade em ouvir, mas não queria perder nenhum verso.
   Vinte e quatro de dezembro                Vinte e quatro de dezembro
   Vinte e quatro de dezembro                Vinte e quatro de dezembro
   De meia noite para o dia                       De meia noite para o dia

   Jesus Cristo nasceu                                Jesus Cristo nasceu
   Jesus Cristo nasceu                                Jesus Cristo nasceu
   Filho da virgem Maria                            Filho da virgem Maria

   Nasceu numa manjedoura                   Nasceu numa manjedoura
   Nasceu numa manjedoura                   Nasceu numa manjedoura
   Entre pedras e selvagens                      Entre pedras e selvagens
   Sabedores que o Domiciano era grande apreciador dessa tradição, visitaram-no de surpresa. Ao receber o Terno, sozinho em sua simples casa, apoiou-se com as duas mãos no barrote da casa e chorou de emoção. Pouca coisa tinha a oferecer, não precisava, a alegria do amigo foi a maior oferta que tiveram naquela temporada.  
    Para dar exemplo ao mundo                 Para dar exemplo ao mundo
   Para dar exemplo ao mundo                 Para dar exemplo ao mundo                                       
   Nasceu entre os animais                         Nasceu entre os animais

  
   Na terra ganhou a luz                              Na terra ganhou a luz
   Na terra ganhou a luz                              Na terra ganhou a luz
   Para o céu ganhou a glória                     Para o céu ganhou a glória                  

   Nasceu para a vida eterna                      Nasceu para a vida eterna
   Nasceu para a vida eterna                      Nasceu para a vida eterna
   Pra sempre amem Jesus                         Pra sempre amem Jesus
   Cantaram por mais de uma hora, tomaram um pouco de fôlego e um chimarrão que já estava rodando, recomeçaram a cantar músicas sertanejas (antigas) que era do gosto de todos.
   Não demorou muito, foram convidados para a mesa, que já estava servida com um café bem reforçado, pão de casa, rosca de polvilho, farte, cuscuz torrado, torresmo, queijo e para arrematar, doce de figo.
    Aos cantadores pode ser oferecido um banquete ou apenas um simples chimarrão, mas é comum oferecer-lhes um presente como oferta: uma garrafa de vinho, um espumante, pão de caseiro, réstia de alho, até dinheiro em notas de pequeno valor na hora do agradecimento, fazendo com que repitam estes versos por várias vezes, a cada brinde recebido.
   Os nossos cantadores receberam do dono da casa uma réstia de cebola colhida da roça como oferta, então cantam o agradecimento e despedida.
   Senhor e sua senhora                          Senhor e sua senhora
   Senhor e sua senhora                          Senhor e sua senhora
   Caminhos do bem querer                   Caminhos do bem querer                      






   Os amigos aqui presentes                   Os amigos aqui presentes
   Os amigos aqui presentes                   Os amigos aqui presentes
   Vão nos desculpar                                Vão nos desculpar

   Queremos sua licença                          Queremos sua licença
   Queremos sua licença                          Queremos sua licença
   Para esse Terno agradecer                  Para esse Terno agradecer

   Nossas horas estão vencidas               Nossas horas estão vencidas
   Nossas horas estão vencidas               Nossas horas estão vencidas
   Nós temos contas a dar                         Nós temos conta a dar
       
   Por tudo que vós nos deu                     Por tudo que vós nos deu
   Por tudo que vós nos deu                     Por tudo que vós nos deu
   Deixo muito obrigado                            Deixo muito obrigado

   Esse Terno se despede                          Esse Terno se despede
   Esse Terno se despede                          Esse Terno se despede
   Como fez Cristo em Belém                   Como fez Cristo em Belém 
  Assim o Terno se despede, agradece a oferta, canta a intenção de voltar o ano que vem, apertam-se as mãos e saem. Mas não encerram a noite. Vão ainda cantar em outra casa e também nas outras noites até o dia de Reis.
   Certa vez o Terno do Mestre João Colono fazendo o agradecimento em uma casa, aí pelo interior, o dia já amanhecendo, o dono da casa, por sacanagem, oferecendo coisas de pequeno valor uma por vez, saiu o Mestre com este verso:
   Meu senhor dono da casa
   Meu senhor dono da casa
   Deste Terno tenha dó
   Se quiser dar mais oferta
   Se quiser dar mais oferta
   Que dê de uma vez só
   São poucas as pessoas da minha idade que gostam do Terno, a maioria provavelmente nem conhece, mas para gerações passadas foi muito marcante ter presenciado, participado, ser acordado no meio da noite no tempo da efervescência desta manifestação.   
   Hoje esse folclore está enfraquecido, mas está vivo, temos apenas no nosso município cinco grupos ativos, cujos mestres são: Tony, Orêncio, Odemar, Zequinha Rodrigues e Zé Marciano. O que me parece é que falta uma continuidade, os tocadores não estão conseguindo passar para seus filhos e netos o apego a está tradição. Precisamos resgatar está tradição dando a ela o seu devido valor tentando despertar no jovem o gosto pelas nossas origens e cultura, pois com o passar do tempo, as coisas mudaram, até o Natal não é mais o mesmo, o aniversariante está meio esquecido, este que para dar exemplo ao mundo, nasceu entre os animais e numa manjedoura como diz o mestre Carlinhos, significado de humildade que não vimos hoje.
   A secretaria municipal de cultura, turismo e esporte do nosso município está organizando o “Natal Açoriano”, onde pretende fazer uma apresentação de Terno de Reis na frente do colégio Santa Terezinha, em um palco com iluminação especial para a comunidade patrulhense neste natal.
   Obs.: Os versos utilizados: Mestre Tony, Mestre Carlinhos.
   Glossário:
   Bagaceiro - monte de bagaço de cana que já foi moída
   Escuma - espuma retirada da garapa que esta fervendo antes de virar melado
   Farte - pão recheado de pirão feito com melado, farinha de mandioca e pimenta
   Querosene - combustível para o candeeiro
   Rabeca - violino primitivo

   Fontes:
   João de Oliveira reis (João Colono)
   Flavio Francisco de Oliveira Reis (Garrafão)
   José Valtor Kenevitz de Carvalho (Zé Cabeça de Cebola)
   Odemar Machado Ramos
   A vila da Serra (Antonio Stenzel Filho)
   Viajando pelo município (Marina Raymundo da Silva)
   Presença açoriana (organizadora Véra Lucia Maciel Barroso)
   Paixão Cortes
   Wikipédia Google
   Pesquisa e redação: Mariana Carvalho – 8ª série

Comentários

  1. Parabéns pelo teu blog!!!
    e espero agora em 2012 podermos usá-lo!!
    Fico muito feliz em ler o que escrevestes, postastes!!

    Grande Abraço!!!
    Teacher Erinéia

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